Vai Comprar ou Vender um imóvel? Confira o artigo: Compra e Venda de Imóveis no Brasil: Guia Completo do Processo Legal.
A rescisão de contrato de compra e venda de imóveis movimentou mais de R$ 8,2 bilhões em 2024 no Brasil, segundo dados do setor imobiliário. Esse processo permite que comprador ou vendedor encerre o vínculo jurídico de uma negociação imobiliária, seja por inadimplência, atraso na entrega ou simples desistência.
Neste artigo, você vai descobrir:
- Quando a rescisão é permitida por lei
- Quanto você pode receber de volta (percentuais exatos)
- Diferenças entre culpa do comprador e do vendedor
- Prazos legais para devolução de valores
- Como formalizar o distrato sem prejuízos
- Situações em que o advogado especializado pode orientar
O Que É Rescisão de Contrato Imobiliário
Rescisão contratual é a extinção do vínculo jurídico entre comprador e vendedor, desfazendo a obrigação de transferência do imóvel. O contrato deixa de produzir efeitos, e as partes retornam à situação anterior, com ajustes financeiros conforme a causa da rescisão.
Esse procedimento está previsto no Código Civil (artigos 475 e 476), no Código de Defesa do Consumidor e na Lei 13.786/2018 (Lei do Distrato).
A rescisão pode ocorrer por inadimplemento (descumprimento de obrigação), caso fortuito ou mútuo acordo entre as partes. Conhecer essas situações ajuda a tomar decisões mais seguras e evitar prejuízos financeiros desnecessários.
Motivos Legais Para Cancelar Compra de Imóvel
Existem diversos motivos que autorizam a rescisão de um contrato imobiliário. A lei brasileira protege tanto comprador quanto vendedor em situações específicas de descumprimento ou impossibilidade de seguir com o negócio.
Inadimplência do Comprador
Quando o comprador deixa de pagar as parcelas do financiamento ou do contrato direto com a construtora, o vendedor pode solicitar a rescisão.
Nesse cenário, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça permite retenção de 10% a 25% dos valores já pagos, dependendo dos prejuízos comprovados. A Súmula 543 do STJ estabelece que a devolução ao comprador inadimplente deve ser imediata, descontando-se apenas o percentual legal de retenção.
Atraso na Entrega do Imóvel
Se a construtora ultrapassa o prazo de tolerância (geralmente 180 dias) sem entregar o imóvel, o comprador pode rescindir o contrato sem penalidades.
A Lei 13.786/2018 garante devolução de 100% dos valores pagos, com correção monetária desde o desembolso e juros de mora desde a citação judicial. Em São Paulo, casos de atraso na entrega cresceram 34% entre 2023 e 2024, especialmente em regiões como Zona Leste e ABC Paulista.
Irregularidades na Documentação
Descobrir que o imóvel possui pendências jurídicas, ônus reais (hipoteca, penhora) ou problemas estruturais graves autoriza a rescisão imediata.
Se houver má-fé do vendedor, o comprador pode exigir devolução integral dos valores e indenização por danos morais e materiais.
Propaganda Enganosa
Quando a construtora promete condições não cumpridas (como tamanho do imóvel, qualidade dos materiais, infraestrutura do condomínio ou localização diferente do anunciado), o Código de Defesa do Consumidor protege o comprador.
Nesse caso, há direito à restituição total e possível indenização.
Problemas Financeiros Inesperados
Desemprego, doenças graves ou crises familiares podem impossibilitar o pagamento das parcelas. Nesses casos, o comprador pode negociar a rescisão, mas estará sujeito à retenção de até 25% como multa compensatória.
Mútuo Acordo (Distrato)
Quando ambas as partes concordam em encerrar o contrato, formalizam um distrato com cláusulas claras sobre devolução de valores e penalidades. Essa é a forma mais rápida e menos custosa de rescindir.
Quem Tem Direito de Rescindir o Contrato
A lei brasileira define situações específicas em que cada parte pode solicitar o cancelamento do contrato. Conhecer esses direitos evita aceitar propostas injustas ou perder valores pagos.
| Situação | Quem Pode Rescindir | Fundamento Legal |
|---|---|---|
| Inadimplência do comprador | Vendedor ou construtora | Código Civil, art. 475 |
| Atraso superior a 180 dias | Comprador | Lei 13.786/2018 |
| Vício oculto grave | Comprador | CDC, art. 18 |
| Propaganda enganosa | Comprador | CDC, art. 35 |
| Desistência sem justa causa | Comprador (com multa) | Lei 13.786/2018 |
| Mútuo consentimento | Ambas as partes | Código Civil, art. 472 |
Quanto Você Recebe de Volta na Rescisão
Os valores restituídos variam conforme quem deu causa ao cancelamento do contrato. A legislação brasileira estabelece percentuais e regras claras para proteger ambas as partes.
Rescisão Por Culpa do Comprador
A Lei 13.786/2018 (artigo 67-A da Lei 4.591/64) permite que o vendedor retenha de 10% a 25% dos valores pagos. O percentual exato depende de:
- Despesas administrativas comprovadas
- Publicidade e comissões de corretagem
- Tempo de ocupação do lote ou imóvel
- Desvalorização do bem no mercado
Em imóveis com patrimônio de afetação (regime que protege compradores), a retenção pode chegar a 50% em casos específicos.
Rescisão Por Culpa do Vendedor
Quando a construtora ou vendedor descumpre o contrato, o comprador recebe 100% dos valores pagos, com:
- Correção monetária desde cada desembolso
- Juros de mora de 1% ao mês desde a citação judicial
- Possível indenização por danos materiais (aluguel pago, mudança)
- Indenização por danos morais em casos de má-fé comprovada
Mútuo Acordo
No distrato consensual, as partes negociam livremente os valores e condições. É comum acordar retenção inferior a 25% para evitar custos judiciais e agilizar o processo.
Prazos Para Receber Valores de Volta
A Lei 13.786/2018 estabelece prazos claros para restituição de valores:
- Imóveis com patrimônio de afetação: 30 dias após emissão do “habite-se”
- Demais imóveis: até 180 dias após formalização da rescisão
- Rescisão por culpa do vendedor: prazo pode ser reduzido para 60 dias mediante acordo
A devolução deve ocorrer em parcela única, salvo acordo expresso em contrário. Atrasos na restituição geram juros de 1% ao mês e correção monetária pelo INPC.
Como Cancelar Contrato de Imóvel: Passo a Passo
Formalizar a rescisão exige atenção a detalhes documentais e prazos legais. Seguir um roteiro organizado evita erros que podem resultar em perda de valores.
1. Leia o Contrato Com Atenção
Identifique cláusulas sobre prazos, multas, percentuais de retenção e condições de rescisão. Verifique se há cláusulas abusivas que estipulem retenção superior a 25% ou cobrança de “taxa de fruição”.
2. Notifique a Outra Parte Por Escrito
Envie notificação extrajudicial (via cartório) ou e-mail com aviso de recebimento, informando:
- Motivo da rescisão
- Fundamentação legal
- Valores pagos até o momento
- Prazo para resposta (geralmente 10 dias úteis)
3. Negocie Diretamente
Tente acordo amigável para evitar custos judiciais. Proponha percentuais de retenção justos e prazos menores para devolução. Em São Paulo, a mediação extrajudicial resolve cerca de 60% dos casos imobiliários.
4. Formalize o Distrato
Se houver acordo, elabore um distrato contendo:
- Identificação completa das partes
- Número do contrato original
- Motivo da rescisão
- Valores a serem devolvidos
- Prazo e forma de pagamento
- Assinaturas com firma reconhecida
5. Registre em Cartório (Se Necessário)
Contratos registrados em cartório exigem averbação da rescisão para liberar o imóvel de ônus. O custo varia de R$ 300 a R$ 800 em São Paulo, dependendo do valor do imóvel.
6. Acione a Justiça (Se Não Houver Acordo)
Se o vendedor recusar a devolução ou propor condições abusivas, o ingresso com ação de rescisão contratual cumulada com perdas e danos pode ser necessário. O prazo médio de tramitação em São Paulo é de 18 a 24 meses.
Imóvel na Planta x Imóvel Pronto: Diferenças na Rescisão
As regras de cancelamento variam conforme o tipo de imóvel adquirido. Entender essas diferenças ajuda a calcular valores e prazos corretos de restituição.
Imóvel na Planta (Incorporação)
É regido pela Lei 4.591/64 e Lei 13.786/2018. Permite rescisão por atraso superior a 180 dias. A retenção fica limitada a 25% (ou 50% com patrimônio de afetação).
A construtora deve devolver valores em até 180 dias após a formalização do distrato.
Imóvel Pronto (Compra e Venda Particular)
É regido pelo Código Civil e CDC (se vendedor for empresa). A rescisão depende das cláusulas contratuais pactuadas.
O percentual de retenção segue o contrato (limitado a 25% se abusivo). A devolução ocorre conforme negociado ou determinado judicialmente.
ITBI e Imposto de Renda na Rescisão
Aspectos tributários podem gerar restituições adicionais ou obrigações declaratórias. Conhecer essas regras evita perda de dinheiro e problemas com a Receita Federal.
ITBI (Imposto de Transmissão)
Se o contrato já foi registrado no cartório e o ITBI foi pago, o comprador pode solicitar restituição do imposto junto à Prefeitura em até 5 anos. Em São Paulo, o prazo de análise é de 60 a 90 dias.
Imposto de Renda
Ganho de capital na rescisão (quando o comprador recebe mais do que pagou) está sujeito a IR, com alíquota de 15% sobre o lucro.
Pessoas físicas devem declarar valores restituídos na ficha “Rendimentos Isentos e Não Tributáveis”.
Rescisão de Contrato em São Paulo: Situações Especiais
A capital paulista e região metropolitana apresentam particularidades que afetam rescisões contratuais. Conhecer essas especificidades ajuda moradores dessas áreas a defender melhor seus direitos.
Loteamentos Irregulares
Na Zona Leste e região de Parelheiros, loteamentos irregulares respondem por 40% das rescisões judiciais. Compradores têm direito à devolução integral mesmo sem registro do contrato, bastando comprovar pagamento.
Imóveis em Regiões Valorizadas
No Itaim Bibi, Vila Madalena e Pinheiros, construtoras tentam reter percentuais acima de 25% alegando “valorização de mercado”. Essa cláusula é abusiva e pode ser contestada judicialmente.
Financiamento Habitacional
Em contratos com financiamento bancário (CEF, Bradesco, Itaú), a rescisão exige comunicação simultânea ao banco. O comprador pode exigir devolução do FGTS utilizado como entrada.
Quando Buscar Orientação Jurídica
Um profissional especializado em direito imobiliário pode orientar sobre:
Análise de cláusulas abusivas: identificar percentuais de retenção excessivos, taxas indevidas (fruição, ocupação) ou prazos de devolução incompatíveis com a lei.
Cálculo exato de valores: apurar correção monetária (INPC ou IGP-M), juros de mora, descontos legais e valores realmente devidos ao comprador.
Negociação estratégica: intermediar acordo com construtora ou vendedor para reduzir retenções, antecipar prazos e evitar litígio judicial.
Ingresso de ação judicial: elaborar petição inicial, juntar documentos, requerer tutela de urgência para suspender cobranças e acompanhar o processo até a sentença.
Cobrança de indenizações: demonstrar danos materiais (aluguéis pagos, mudanças, despesas com mobília) e morais (abalo emocional, frustração do sonho da casa própria).
Regularização documental: averbar rescisão em cartório, solicitar baixa de gravames (hipoteca, alienação fiduciária) e liberar certidões negativas do imóvel.
A consulta inicial com advogado especializado evita perda de prazos, aceite de propostas prejudiciais e garante restituição de valores conforme seus direitos legais.
Cláusulas Abusivas Mais Comuns em Contratos
Construtoras e vendedores frequentemente incluem cláusulas que contrariam a legislação. Identificar esses pontos antes de aceitar um distrato protege seu patrimônio.
| Cláusula Abusiva | Por Que É Ilegal | O Que Fazer |
|---|---|---|
| Retenção acima de 25% | Contraria Lei 13.786/18 | Contestar judicialmente |
| Taxa de fruição em lote não edificado | Vedada pelo STJ | Exigir devolução |
| Prazo superior a 180 dias para devolução | Contraria legislação | Ação de cobrança |
| Multa calculada sobre valor total (não pago) | Jurisprudência considera abusiva | Revisão contratual |
| Retenção de comissão de corretagem | Corretagem não integra retenção | Ação de restituição |
O Que Você Pode Fazer Agora
Rescisão de contrato de compra e venda exige atenção aos prazos legais e percentuais de retenção para evitar prejuízos financeiros. Se você enfrenta inadimplência, atraso na entrega ou deseja desistir da compra, reúna toda a documentação (contrato, recibos, notificações) e busque orientação especializada antes de aceitar propostas da construtora.
Vai Comprar ou Vender um imóvel? Confira o artigo: Compra e Venda de Imóveis no Brasil: Guia Completo do Processo Legal.
Este artigo fornece informações gerais sobre a legislação brasileira e não constitui orientação jurídica específica. Para decisões importantes envolvendo transações imobiliárias, consulte sempre um advogado especializado em direito imobiliário.
NR Advogados Imobiliários
Perguntas Frequentes Sobre Rescisão de Contrato de Compra e Venda de Imóvel
1. Posso rescindir contrato de imóvel mesmo após assinar?
Sim, a lei permite rescisão a qualquer momento antes da quitação, mas o comprador pode estar sujeito a multas de até 25% dos valores pagos se a desistência não tiver justa causa.migalhas+1
2. Quanto tempo demora para receber os valores de volta?
Em imóveis com patrimônio de afetação, até 30 dias após o “habite-se”; nos demais casos, até 180 dias após formalização da rescisão
3. Posso rescindir se já paguei mais de 50% do imóvel?
Sim, não há limite de pagamento para solicitar rescisão. O percentual pago não impede o direito de desistir, mas influencia no valor da retenção.ruela+1
4. A construtora pode reter a comissão de corretagem?
Não, a comissão de corretagem não integra o percentual de retenção de 25%, pois já foi paga a terceiros
5. Como funciona rescisão em financiamento bancário?
O comprador deve notificar o banco e a construtora simultaneamente. A devolução inclui parcelas pagas ao banco, deduzido o percentual de retenção legal.
6. Posso cobrar danos morais na rescisão?
Sim, se houver má-fé comprovada do vendedor (propaganda enganosa, atraso injustificado), é possível pleitear indenização por danos morais e materiais.
7. A rescisão afeta meu score de crédito?
Não, a rescisão contratual amigável ou judicial não é reportada a órgãos de proteção ao crédito, salvo se houver inadimplência prévia sem acordo.
8. Posso reaver o FGTS usado na entrada?
Sim, valores do FGTS utilizados devem ser devolvidos à conta vinculada do trabalhador, mediante solicitação à Caixa Econômica Federal.
9. O que é patrimônio de afetação?
Regime contábil que separa recursos de cada empreendimento, protegendo compradores em caso de falência da construtora. Permite retenção de até 50% em rescisões.
10. Posso rescindir contrato verbal de compra de imóvel?
Contratos de compra e venda de imóveis acima de R$ 10 mil exigem forma escrita. Acordos verbais podem ser rescindidos, mas comprovação dos pagamentos é essencial para restituição.