Mais de 11 milhões de domicílios no Brasil têm algum tipo de irregularidade fundiária ou documental, segundo o IBGE. Isso significa que muita gente mora, usa e até paga impostos de um imóvel que, no papel, ainda não é legalmente seu.
Saber onde e como regularizar um imóvel é o primeiro passo para proteger esse patrimônio.
Neste guia, você vai encontrar:
- O que é um imóvel irregular e quais os tipos mais comuns
- Onde regularizar: prefeitura, cartório ou Receita Federal
- Passo a passo completo por tipo de irregularidade
- Lista de documentos necessários
- Estimativa de custos e prazos
- Como funcionam a REURB e a usucapião
- Quando buscar orientação de um advogado imobiliário
O Que É um Imóvel Irregular
Um imóvel irregular é aquele que não está em conformidade com as exigências legais. Isso pode acontecer por problemas na documentação, na construção ou no registro em cartório.
Uma analogia simples: é como ter um carro sem o documento de transferência no seu nome. Você usa, mora, mas juridicamente não é reconhecido como dono.
Um imóvel é considerado regular quando:
- Possui matrícula atualizada no Cartório de Registro de Imóveis
- Está livre de ônus, penhoras ou restrições legais
- Não tem débitos de IPTU, condomínio ou taxas municipais
- Está em conformidade com as normas de construção do município
Tipos Mais Comuns de Irregularidade
Os tipos de irregularidade variam bastante. Cada um exige uma solução diferente e um caminho específico de regularização.
| Tipo | Causa Principal | Onde Resolver |
|---|---|---|
| Sem matrícula | Imóvel nunca foi registrado | Cartório de Registro de Imóveis |
| Contrato de gaveta | Compra e venda não oficializada | Tabelionato de Notas + Cartório RI |
| Construção irregular | Obra sem alvará ou habite-se | Prefeitura Municipal |
| Imóvel em espólio | Dono faleceu sem inventário | Tabelionato de Notas (inventário) |
| Área não averbada | Reforma ou ampliação não registrada | Cartório de Registro de Imóveis |
| REURB | Ocupação informal em área urbana | Prefeitura (Lei 13.465/2017) |
Por Que Regularizar um Imóvel Vale a Pena
Um imóvel irregular trava a vida patrimonial da família. As consequências aparecem na hora de vender, financiar ou deixar de herança.
Veja o que muda com a regularização:
- O imóvel pode ser vendido, doado ou deixado em herança sem impedimentos legais
- Permite obter financiamento bancário (Caixa Econômica Federal, Bradesco, Itaú e outros)
- Pode ser usado como garantia de crédito (home equity)
- Tende a ter maior valor de mercado
- Evita multas da prefeitura por construção clandestina
- Protege o patrimônio em disputas de posse ou processos de herança
Manter o imóvel irregular também traz riscos concretos:
- Impossibilidade de venda formal com segurança jurídica
- Recusa de financiamento por instituições bancárias
- Risco de perda em disputas judiciais e inventários
- Desvalorização do bem no mercado imobiliário
Onde Regularizar um Imóvel: O Papel de Cada Órgão
Regularizar um imóvel não acontece em um único lugar. O caminho depende do tipo de irregularidade, e cada órgão resolve uma parte específica do problema.
Prefeitura Municipal
A prefeitura cuida de tudo relacionado à construção e ao uso do solo. É onde você resolve:
- Aprovação de planta e projeto arquitetônico
- Alvará de construção ou alvará de regularização
- Habite-se (certificado de conclusão de obra)
- Certidões negativas de débitos municipais (IPTU)
- Pedidos do programa REURB para ocupações informais
Em São Paulo, o atendimento é feito pela Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL), com agendamento pelo portal SP156 ou presencialmente nas subprefeituras.
Cartório de Registro de Imóveis
O Cartório de Registro de Imóveis é onde a propriedade é formalizada perante a lei. Sem o registro, nenhuma transferência tem validade jurídica plena. As principais solicitações feitas aqui são:
- Abertura ou atualização da matrícula
- Registro da escritura pública ou sentença de usucapião
- Averbação de construções, reformas e ampliações
- Retificação de área e confrontações
- Registro de inventário e partilha de herança
Em São Paulo capital, existem mais de 20 circunscrições de Registro de Imóveis. A competência depende da localização do imóvel.
Tabelionato de Notas
O Tabelionato de Notas é onde se lavra a escritura pública de compra e venda, doação ou inventário extrajudicial. Sem a escritura pública registrada, a transferência de propriedade não tem validade jurídica completa.
Receita Federal
A Receita Federal é necessária para emitir a Certidão Negativa de Débitos (CND) de obra. O documento comprova que a contribuição previdenciária sobre a mão de obra foi recolhida corretamente e é exigido sempre que houve construção ou ampliação no imóvel.
A Ordem Certa Entre os Órgãos
Seguir a sequência correta evita retrabalho e documentos que precisam ser refeitos:
- Prefeitura (aprovação de planta e habite-se, se houver obra)
- Receita Federal (CND de obra, se houver construção)
- Tabelionato de Notas (lavratura da escritura, se necessário)
- Cartório de Registro de Imóveis (registro e averbação final)
Passo a Passo: Como Regularizar um Imóvel
O processo começa sempre pelo diagnóstico. Antes de qualquer outra ação, é preciso saber exatamente o que está irregular no imóvel.
Passo 1: Levantamento Documental
Reúna os documentos básicos antes de dar qualquer outro passo:
- Escritura ou contrato de compra e venda
- Certidão de matrícula atualizada (obtida no Cartório de Registro de Imóveis)
- IPTU dos últimos 3 anos
- Documentos pessoais: RG, CPF e certidão de estado civil
- Planta do imóvel, se houver construção
A certidão de matrícula é o ponto de partida. Ela revela o histórico completo da propriedade: proprietários anteriores, dívidas, penhoras e pendências.
Passo 2: Identifique o Tipo de Irregularidade
Com a matrícula em mãos, responda:
- O imóvel tem matrícula ou não?
- O nome do proprietário atual está atualizado?
- Há construções ou reformas não averbadas?
- Existe alguma dívida de IPTU ou taxa municipal?
- O imóvel tem habite-se?
Cada resposta aponta para um caminho diferente. Confira a lista completa de documentos para regularizar um imóvel conforme cada situação.
Passo 3: Regularize na Prefeitura (se houver construção irregular)
Se o imóvel foi construído sem alvará ou habite-se, o processo segue esses passos:
- Contrate um engenheiro civil ou arquiteto para elaborar a planta e o memorial descritivo
- Obtenha a ART (Anotação de Responsabilidade Técnica) ou RRT junto ao CREA ou CAU
- Protocole o pedido de regularização na prefeitura do município
- Pague as taxas e eventuais multas de obra irregular
- Aguarde a emissão do alvará de regularização ou habite-se
Passo 4: Emita a CND na Receita Federal
Se houve construção ou reforma com mão de obra contratada, a CND de obra é obrigatória. Comprova regularidade com o INSS e pode ser solicitada pelo portal da Receita Federal ou nas agências físicas.
Passo 5: Lavre a Escritura Pública (se necessário)
Se o imóvel foi adquirido por contrato de gaveta ou nunca teve escritura pública, vá ao Tabelionato de Notas com:
- Contrato de compra e venda original
- Documentos pessoais de comprador e vendedor
- Certidões negativas do vendedor (Federal, Estadual, Trabalhista e de Protestos)
- ITBI recolhido (imposto municipal obrigatório)
- Matrícula atualizada do imóvel
Passo 6: Registre no Cartório de Registro de Imóveis
Registrar o imóvel é o passo que formaliza a propriedade perante a lei. Com escritura, habite-se, CND e demais documentos em mãos, dê entrada no cartório para:
- Registrar a escritura e transferir a propriedade formalmente
- Averbar construções ou reformas realizadas
- Atualizar dados do proprietário na matrícula
Somente após o registro, o proprietário passa a constar oficialmente na matrícula do imóvel. Veja em detalhes cada uma das etapas para regularizar a matrícula do imóvel, com o que o cartório exige em cada situação.
Documentos Necessários por Tipo de Irregularidade
A lista de documentos muda conforme o problema a resolver. Reúna os documentos corretos antes de protocolar qualquer pedido para evitar atrasos desnecessários.
Para Regularização de Escritura e Contrato de Gaveta
- RG e CPF do comprador e do vendedor
- Certidão de estado civil atualizada de ambas as partes
- Certidões negativas do vendedor (Federal, Estadual, Trabalhista, Protesto)
- Matrícula atualizada do imóvel
- Contrato de compra e venda original
- Comprovante de pagamento do ITBI
- IPTU atualizado
Para Regularização de Construção
- Documentos pessoais do proprietário
- Matrícula do terreno atualizada
- Planta e memorial descritivo assinados por engenheiro ou arquiteto habilitado
- ART (CREA) ou RRT (CAU)
- Alvará de regularização ou habite-se da prefeitura
- CND de obra emitida pela Receita Federal
- Certidão negativa de débitos municipais
Para Regularização por Inventário
- Certidão de óbito do proprietário falecido
- Certidão de matrícula atualizada dos bens imóveis
- Documentos pessoais de todos os herdeiros
- ITCMD recolhido (imposto estadual sobre herança)
- Certidões negativas em nome do falecido
Quanto Custa Regularizar um Imóvel
Os custos variam conforme o tipo de irregularidade, o valor do imóvel e o município. A tabela abaixo traz uma estimativa geral:
| Item | Custo Aproximado |
|---|---|
| Certidão de matrícula | R$ 30 a R$ 80 |
| ITBI (imposto municipal) | 2% a 3% do valor do imóvel |
| Escritura pública (Tabelionato de Notas) | 0,2% a 2% do valor do imóvel |
| Registro no Cartório de Registro de Imóveis | 0,5% a 1% do valor do imóvel |
| Aprovação de planta na prefeitura | Variável por município |
| CND de obra (Receita Federal) | Gratuita |
| Honorários de engenheiro ou arquiteto | R$ 2.000 a R$ 10.000 ou mais |
Em São Paulo, a tabela de emolumentos dos cartórios é fixada pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ-SP) e atualizada anualmente por portaria.
Quanto Tempo Leva a Regularização de Imóvel
Os prazos variam conforme a complexidade do processo. A tabela abaixo apresenta uma estimativa por tipo de regularização:
| Tipo de Regularização | Prazo Estimado |
|---|---|
| Averbação de construção simples | 30 a 60 dias |
| Regularização de escritura ou contrato de gaveta | 30 a 90 dias |
| Regularização de construção irregular | 3 a 12 meses |
| Inventário extrajudicial | 2 a 6 meses |
| Usucapião extrajudicial | 6 meses a 2 anos |
| REURB (regularização fundiária) | 1 a 3 anos |
REURB: Regularização de Imóvel em Ocupação Informal
A REURB (Regularização Fundiária Urbana) foi criada pela Lei Federal 13.465/2017 e permite regularizar moradias em ocupações informais em áreas urbanas, como loteamentos clandestinos, favelas e conjuntos habitacionais irregulares.
Existem duas modalidades:
- REURB-S: Para famílias de baixa renda, com isenção de taxas e emolumentos de cartório
- REURB-E: Para os demais casos, com pagamento das taxas correspondentes
Como Solicitar a REURB
O pedido é feito diretamente na prefeitura do município onde o imóvel está localizado. Em São Paulo, o programa é coordenado pela Secretaria Municipal de Habitação (SEHAB). A lei também permite que associações de moradores apresentem pedidos coletivos em nome dos beneficiários.
Usucapião: Como Regularizar Imóvel Sem Escritura por Posse
A usucapião é o caminho legal para quem mora em um imóvel por anos sem escritura nem matrícula no próprio nome. Ela transforma a posse de fato em propriedade de direito, desde que cumpridos os requisitos previstos em lei.
Desde 2015, o processo de usucapião extrajudicial pode ser feito diretamente no Cartório de Registro de Imóveis, sem necessidade de ação judicial. Isso torna o procedimento mais ágil. A participação de um advogado é obrigatória nesse caso, conforme estabelecido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Modalidades de Usucapião no Brasil
| Modalidade | Prazo Mínimo de Posse | Requisito Principal |
|---|---|---|
| Ordinária | 10 anos | Justo título e boa-fé |
| Extraordinária | 15 anos (ou 10 com moradia/produção) | Posse mansa e contínua |
| Especial Urbana | 5 anos | Imóvel até 250 m², moradia própria, sem outro imóvel |
| Especial Rural | 5 anos | Área produtiva até 50 ha, sem outro imóvel |
Regularização de Imóvel em São Paulo: Especificidades da Capital
São Paulo tem regras próprias que afetam diretamente o processo de regularização. Conhecer essas particularidades evita erros e atrasos no protocolo.
- O Plano Diretor Estratégico (PDE) define zonas de uso, gabarito, coeficientes de aproveitamento e regras de construção em cada região da cidade
- A Lei de Zoneamento (Lei 16.402/2016) classifica os usos permitidos por zona
- A aprovação de plantas é feita pela SMUL via portal SP156 ou presencialmente nas subprefeituras
- O ITBI em São Paulo é calculado sobre o valor venal de referência do imóvel, que pode ser diferente do preço de compra
- Há programas específicos para HIS (Habitação de Interesse Social) nas periferias e regiões de mananciais
Para imóveis em outras cidades da Grande São Paulo, como ABC Paulista, Guarulhos, Campinas e Santos, as regras seguem o Plano Diretor de cada município.
Imóveis Que Não Podem Ser Regularizados
Nem todo imóvel tem caminho para regularização. Em geral, não é possível regularizar quando o imóvel:
- Foi construído em área pública (parque, praça, logradouro)
- Está em Área de Preservação Permanente (APP): margem de rio, encosta de morro
- Faz parte de operação urbana com restrições pelo Plano Diretor municipal
- Está sob faixa de passagem de linhas de transmissão de alta tensão
- Foi construído em loteamento irregular sem possibilidade de aprovação pelo zoneamento municipal
Quando Buscar Orientação Jurídica
Algumas situações envolvem questões que vão além de protocolar documentos. Um profissional especializado em direito imobiliário pode orientar sobre:
- Qual tipo de irregularidade afeta o imóvel e qual o caminho mais adequado para cada caso
- Como proceder em disputas de posse, sobreposição de matrícula ou conflitos de limites
- A condução do processo de usucapião extrajudicial ou judicial
- A análise de contratos de compra e venda antes de assinar qualquer documento
- A regularização da matrícula em situações com múltiplos herdeiros ou proprietários
- O processo de REURB para imóveis em áreas de ocupação informal
- A averbação de construções e reformas que envolvam dúvidas sobre documentação
Para entender melhor as etapas, confira o guia sobre como regularizar imóvel já construído, com informações sobre cada fase e os documentos exigidos.
O Que Você Pode Fazer Agora
O ponto de partida mais eficiente é sempre a certidão de matrícula atualizada. Ela revela exatamente o que precisa ser resolvido e evita desperdício de tempo com etapas desnecessárias.
Para situações mais complexas, como usucapião, inventário, retificação de área ou REURB, o acompanhamento jurídico especializado contribui para que o processo seja conduzido de forma adequada e dentro das exigências legais.
Este artigo fornece informações gerais sobre a legislação brasileira e não constitui orientação jurídica específica. Para decisões importantes envolvendo transações imobiliárias, consulte sempre um advogado especializado em direito imobiliário.
NR Advogados Imobiliários
Perguntas Frequentes Sobre Onde e Como Regularizar um Imóvel
1. Onde e como regularizar um imóvel sem escritura?
Se o imóvel não tem escritura, verifique se existe um contrato de compra e venda. Com ele, vá ao Tabelionato de Notas para lavrar a escritura pública. Se não houver contrato e você tiver posse mansa há anos, o caminho indicado é a usucapião.
2. Quanto tempo leva para regularizar um imóvel?
Depende do tipo de irregularidade. Uma averbação simples leva de 30 a 60 dias. Um processo de usucapião extrajudicial pode levar de 6 meses a 2 anos.
3. Qual é o custo médio para regularizar um imóvel?
Os principais custos são: ITBI (2% a 3% do valor do imóvel), emolumentos de cartório (0,5% a 1%), honorários de engenheiro ou arquiteto e eventuais taxas municipais. O valor total varia conforme o tipo de irregularidade.
4. É possível regularizar um imóvel sem localizar o vendedor original?
Sim. Se o vendedor não for localizado e você tiver posse há anos, o caminho é a usucapião. Se o proprietário original faleceu, o processo indicado é o inventário.
5. Posso vender um imóvel irregular?
Sem registro de escritura, o comprador não consegue financiamento bancário. A venda por contrato de gaveta não transfere a propriedade legalmente e representa risco para ambas as partes.
6. O que é a matrícula do imóvel?
A matrícula é o registro oficial do imóvel no Cartório de Registro de Imóveis. Ela funciona como o RG da propriedade e registra toda a história do bem: proprietários anteriores, metragem, dívidas, penhoras e transferências. Sem matrícula, o imóvel não existe perante o direito.
7. O que é o habite-se?
O habite-se é o certificado emitido pela prefeitura que confirma que a construção foi concluída conforme o projeto aprovado e as normas municipais. Sem ele, a obra é considerada irregular e o imóvel não pode ser financiado por banco.
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